nº 7 - Inconstância do Amanhã


Autor: F. G. Rayer  
Título original: Tomorrow Sometimes Comes  
1ª Edição: 1951  
Publicado na Colecção Argonauta em 1954
Capa: Cândido Costa Pinto  
Tradução: Fernando Moutinho

Súmula - foi apresentada no livro nº6 da Colecção, com a indicação de "Ler nas páginas seguintes a súmula do próximo volume da Colecção Argonauta":

"...Perto de campo de aviação, não havia o mais pequeno sinal de vida. O Inverno cobria tudo com o seu manto branco, e as ruínas e os destroços dos edifícios, deformados na sua perspectiva pela alvura da neve pareciam negar a sua origem humana...
Nem sequer um pássaro sobrevoava aquele amontoado de pedras e poeiras. A regição parecia totalmente morta,, e um triste e subtil sentimento de desolação enchia aquele pedaço de terra. 
E, à noite, quando o Sol se apagava e as trevas enchiam de sombras e contornos indecisos os escombrdos da povoação, na imensa cratera aberta pela explosão da bomba cintilavam ténues reflexos de luz azul e débil, como fogos-fátuos, denunciando a acção deletéria da radioactividade, como guarda insaciável da zona destruída, sequisa de mais vítimas, pronta a aniquilar todo o se que se aproximasse.
 Às vezes, um caminhante interrompia a sua viagem, ao passar no alto das colinas que rodeavam a região, e olhava para baixo. Mas, em vez de descer, voltava as costas, com a face transtornada pelo receio, e apressava o passo, afastando-se para longe...
Naquele fim de tarde, a neve caía de novo, suavemente, imaculada, pontilhando as ruínas do hospital de flocos brancos inconscientes, como num esforço efémero para esconder aos olhos da natureza a loucura dos homens. Alguns desses flocos, no seu caminho imponderável, pousaram nos cabelos e na fronte do homem adormecido... Um deles foi descansar no lábio superior, e um fraco sopro de ar, expirado e quente, desfê-lo numa gota de água cristalina que lhe escorreu pela face, como lágrimas...
O major Mantley Rawson sentiu que as imagens voltavam a coordenar-se de novo no seu cérebro. Um enorme torpor de fraqueza enchia-o, porém. Sentia-se incapaz do menor esforço... E a consciência voltava-lhe, aos poucos, como os farrapos de recordações que lhe acudiam á memória. Lembrou-se de Julie e do seu filho Richard... da base de bombardeiros atómicos que comandara... a ordem de ataque... a operação a que fora submetido... o anestésico... um, dois, três, quatro... e o horrível ruído dos aviões e das tremendas explosões...
Depois mergulhara na inconsciência, enquanto o seu amigo Hawtrey, o distinto cirurgião, lhe retalhava o corpo, sob o concerto infernal da batalha atómica. Que se passara depois?... Que consequências teria tido a sua ordem de ataque, dada momentos antes de iniciar a intervenção cirúrgica?... Onde estariam a sua mulher e o seu filho?... E onde e como estaria ele próprio?...
O espírito aclarou-se mais, e a nebulosidade que lhe envolvia o pensamento rasgou-se. Abriu os olhos e contemplou incrédulo o panorama de ruínas que se lhe deparou e o resto do edifício sem tecto onde se encontrava... Depois, lentamente, soergueu-se da marquesa em que se encontrava estendido, e pôs-se de  pé...
No limiar de uma porta completamente desfeita e incompleta, observou, de olhos dilatados pelo espanto e pela dor, a imensa e silenciosa desolação do que fora antes a sua base militar. Não restava pedra sobre pedra... Ao longe, no campo de aviação, dos hangares havia apenas os alicerces, e os destroços irreconhecíveis dum avião assinalavam o ponto de partida da poderosa frota que desencadeara este pesadelo...
O major Rawson ensaiava, então, sem saber, os primeiros passos numa vida extraordinária e inacreditável. Essa nova existência cnduzi-lo-ia junto de seres que nunca imaginara, à presença de máquinas pensantes de inconcebível poder de raciocínio, ao contacto com uma civilização degenerada e estranha, evoluída da que ele conhecera, rebotalho retrogredido da espécie humana. Assistiria às fantásticas faculdades telepáticas que as radiações nucleares tinham dado aos pobres seres que as sofreram. Veria como o seu próprio nome era ferozmente amaldiçoado pela Humanidade. E encontraria, a dirigir uma cidade, o maior e mais espantoso cérebro electrónico que se poderia imaginar. E verificaria, sobretudo, que o fluxo da vida, através das idades, naõ é irreversível, que nem sempre tem um único e determinado futuro, o que ele traçaria como que uma argola fechada na interminável estrada do tempo..." 
Eis a "Inconstância do Amanhã".

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